A reorganização dos contratos petrolíferos internacionais dos EUA é um elo crucial entre a disputa econômica e a escalada política que desaguaram no ataque à Venezuela. Ao resistir à pressão das sanções econômicas, garantir a sobrevivência dos canais de escoamento do seu petróleo e consolidar a presença chinesa nesse processo, Caracas desafiou diretamente a hegemonia dos Estados Unidos no hemisfério. Esgotadas suas opções indiretas, Washington recorreu ao controle territorial direto como recurso final.
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Edna Aparecida da Silva, Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos (INCT-INEU)
Atitudes de Washington deixam claro que, diante da expansão chinesa e da persistência de projetos soberanos que contrariam seus interesses, os EUA estão dispostos a impor pela força os limites da autonomia estatal permitida na região
Lula e Maduro em seu último encontro, na reunião de líderes da América do Sul em Brasília, em 2023: em um ambiente de fragmentação regional e erosão do multilateralismo, uma abordagem bilateral junto à Venezuela e aos Estados Unidos torna-se um caminho promissor.
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Avançar além da condenação retórica exigiria disposição para liderar iniciativas diplomáticas em um contexto regional fragmentado e com poucos países dispostos a criticar os Estados Unidos de forma aberta e sustentada
Delcy Rodríguez, presidenta interina da Venezuela. Com a estrutura de poder chavista aparentemente intacta após sua captura, crescem as possibilidades de Maduro ter sido entregue pelos militares americanos em um acordo de Rodríguez com o governo Trump.
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Derrubar Maduro em troca da manutenção do regime chavista sob o custo da entrega do petróleo para os americanos indica que os EUA não se importam com a democracia, e sim com as riquezas do país atacado
Com Trump no poder nos EUA e onda reacionária pelo mundo, programas internacionais sofreram cortes e interrupções significativos. No Brasil, criatividade política e capacidade de adaptação do movimento social abrem brechas para garantir avanços concretos na resposta ao HIV/AIDS, cuja epidemia ainda não acabou e registra 570 novas infecções por dia entre meninas e mulheres de 15 a 24 anos.
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Helena de Moraes Achcar, Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (FGV/EAESP)
Com Trump no poder, programas internacionais sofreram cortes e interrupções significativos. No Brasil, criatividade política e capacidade de adaptação do movimento social podem abrir brechas
Assinatura marcante, grande e ousada de Donald Trump chamaa a atenção do público e se encaixa perfeitamente na sua longa história de autoglorificação: “Eu adoro minha assinatura, realmente adoro”, disse em discurso recente. “Todo mundo adora minha assinatura”.
Yoan Valat, Pool photo via AP
O psicólogo Richie Zweigenhaft descobriu uma relação entre o tamanho da assinatura e a autoestima. Desde então, um número crescente de pesquisas também estabeleceu uma relação com o narcisismo.
Reduzir déficits comerciais, trazer de volta as indústrias para os Estados Unidos, aumentar o nível de emprego e gerar recursos para reduzir impostos parecem estar entre os objetivos do tarifaço truculento e mal explicado do governo Trump, que a partir de hoje atinge duramente os produtos brasileiros.
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Postura diplomática do Brasil, um dos países mais afetados, indica para o mundo a busca por uma espécie de paciência estratégica. Valentões, em geral, precisam de público e do medo de suas potenciais vítimas
TACO (“Trump Always Chicken’s Out”), TOFU (“Trump Occasionally Follows up”, Trump às vezes cumpre o que diz) e FAFO (“Fuck Around and Find Out”, Faça merda e descubra o que você fez) estão entre as siglas que criticam a politica errática de Trump, ela própria resumida pela sigla MAGA (“Make America Great Again”)
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Depois do Maga (“Make America Great Again”), jornalistas e adversários começaram a usar outras siglas para provocar o presidente americano
Um sorridente Javier Milei cumprimenta Trump em viagem aos EUA. Para conseguir as tarifas mais baixas da América do Sul, Milei aliou-se econômica e ideologicamente aos EUA. Anunciou que vai conceder cidadania a grandes investidores americanos e ameaça deixar Mercosul para criar acordo de livre comércio com os EUA. Mas nada é garantido diante do caráter volátil da atual política externa americana.
Foto: Embaixada dos EUA na Argenina
Preservar fronteiras já não é suficiente. Para um país manter-se soberano hoje, é preciso capacidade de reação frente a dispositivos extraterritoriais, sanções e normas aplicadas por potências dominantes.
Ao comentar os assassinatos em Manhattan, Donald Trump classificou o atirador como um “lunático enlouquecido” e descreveu o ataque como um ato “sem sentido”, de “pura maldade”. Mas o que Trump tenta colocar à distância funciona como uma metáfora perturbadora da política que ele próprio conduz, com critérios duvidosos para ameaçar países aliados com tarifas e sanções.
Ilustração gerada por IA no Envato Labs
Os ‘disparos’ de Trump tendem a ultrapassar os alvos primários: podem desorganizar cadeias produtivas das quais os próprios EUA dependem, pressionar a inflação e alimentar a instabilidade nos mercados globais
Ativistas colocam um cartaz mostrando Donald Trump com Jeffrey Epstein perto da embaixada americana em Londres na quinta-feira 17: O caso Epstein, um milionário abusador, cercado por celebridades, políticos e membros da elite global, está pronto para uso conspiratório, e Trump não está imune à suspeita.
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Trump estava sendo pressionado por sua própria base a “expor” os nomes ligados a Epstein. Para parte dos apoiadores, o ex-presidente estaria, na melhor das hipóteses, sendo omisso. Na pior, seria cúmplice.
U.S. President Donald Trump and then-Brazilian President Jair Bolsonaro attend a joint news conference at the White House on March 19, 2019.
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A carta do presidente dos EUA ao seu homólogo brasileiro mencionou o déficit comercial. Mas não se deixe enganar, essas tarifas são mais políticas do que econômicas
Os presidentes Cyril Ramaphosa (África do Sul), Prabowo Subianto (Indonésia) e Lula na cúpula dos Brics, no Rio. Participação do Brasil no Brics é importante para diversificação e não-alinhamento, mas “é chegada a hora de conter a potência intervencionista e lançar um movimento mais amplo para a reconstrução do tecido multilateral internacional, a partir de princípios claros de justiça e equidade”.
Joédson Alves/Agência Brasil
É chegada a hora de conter a potência intervencionista e lançar um movimento mais amplo para a reconstrução do tecido multilateral internacional, a partir de princípios claros de justiça e equidade
O engajamento dos países do BRICS no processo de desdolarização de parte da economia mundial - que começa a provocar reações pesadas dos EUA - visa proteger as economias destes países da vulnerabilidade gerada pela dependência de uma moeda que começa a sofrer instabilidade, causada principalmente pela política econômica cada vez mais imprevisível do atual governo dos EUA.
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A desdolarização global é um fenômeno lento e gradual. O engajamento dos países do BRICS nesse processo visa proteger suas economias da vulnerabilidade gerada pela dependência de uma moeda que começa a sofrer instabilidade causada pela política econômica dos EUA
Escalada tarifária unilateral representa uma mudança estrutural na política comercial dos EUA, onde sanções econômicas passam a ser instrumentos de coerção política cujo propósito é muito diferente do reequilíbrio comercial.
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Do ponto de vista jurídico, a medida colide frontalmente com os parâmetros do direito internacional e da Organização Mundial do Comercio (OMC)
Muita calma nessa hora: assim como já ocorreu com outros países, reação da diplomacia brasileira frente ao tarifaço de Trump deve ser firme mas fleumática, reforçando o discurso da soberania nacional e da inadmissibilidade de intervenções estrangeiras em decisões do Poder Judiciário.
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Beto Vasques, Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP)
‘Altivez serena’ é a receita de especialistas para a diplomacia brasileira lidar com atitude intempestiva e irracional do presidente americano ao dizer que vai taxar todos osprodutos brasileiros em 50%
Donald Trump e o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, durante o encontro de cúpula que marcou a imposição dos EUA contra a manutenção dos impostos globais das multinacionais. Cada vez mais, Trump faz uso de sua posição dominante na economia mundial e de seu poder de retaliação comercial para conseguir o que quer.
Brasil perde a capacidade de tributar integralmente os lucros de grandes multinacionais americanas atuantes no território nacional, privando o Estado de receitas importantes para saúde, educação e infraestrutura.
A suntuosa parada militar que celebrou o 250º aniversário do exército americano e os 79 anos do presidente Trump: parte da opinião pública classificou o evento como anti-americano e antidemocrático, porém a cultura militarizada está presente desde sempre na história do país.
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O desafio não é apenas conter os abusos de um governante específico, mas questionar os mecanismos que naturalizam a lógica militar em espaços civis
Confrontos entre cidadãos e forças policiais do FBI, ICE e Guarda Nacional nas ruas de Los Angeles escalam em violência: parte da população sai em defesa de imigrantes legais e cidadãos americanos de origem estrangeira que estão sendo presos e deportados irregularmente, na nova e radical política migratória do governo federal.
Jae C. Hong/AP
Trump sempre se beneficiou ao criar crises para promover sua agenda. Ao demonizar os manifestantes em Los Angeles como multidões insurrecionistas, ele prepara terreno para uma escalada ainda maior de violência e autoritarismo
Libaneses tomam sorvete numa lanchonete em Foz do Iguaçu, na Tríplice Fronteira: entre 2006 e 2012, a região integrou lista norte-americana de portos seguros para atividades terroristas - mais especificamente do Hezbollah - sem que jamais tenha ocorrido um atentado ou que algum ativista tenha sido localizado ali.
Foto: Antônio Gaudério/Folhapress
Por mais de uma década, a fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina foi apontada como “refúgio seguro"para ativistas islâmicos, sem nunca ter havido nenhum atentado por lá
Sede da Comissão de Valores Mobiliários, de Câmbio e Agências Relacionadas (SEC), em Washington, uma das Agências Reguladoras Independentes sob ataque do governo federal nos primeiros três meses da administração de Donald Trump.
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Andressa Mendes, Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas
As Ordens Executivas lançadas em fevereiro de 2025 impactam diretamente a atuação das agências e representam uma tentativa sem precedentes de concentrar poder no Executivo norte-americano