Marine Le Pen (à extrema direita da foto) comemora com os integrantes do Reunião Nacional eleitos para o Parlamento nas eleições francesas de 2024: apesar de não ter sido alavancado ao poder como esperava, o partido extremista que carrega bandeiras ultranacionalistas e autoritárias cada vez se “normaliza” mais no cenário político do país. (AP Photo/Michel Euler)

Reunião Nacional: como surgiu e como se modernizou o partido de extrema‑direita que pode ameaçar a democracia na França

A Reunião Nacional, partido de Marine Le Pen, na França, é um partido de extrema-direita? A pergunta agitou as redes sociais nas últimas semanas, depois que o jornalista e publicista Joel Pinheiro da Fonseca afirmou, na Globo News, que esse partido não era de extrema-direita porque não havia tentado “solapar a democracia”, nem promovido “violação direta da dignidade humana”.

Mas, afinal, o que é a extrema-direita? A ideologia da extrema direita pode ser definida pela sua relação com outras ideologias opostas. Com frequência, definições espaciais e relacionais produzem nos extremos conceitos negativos, do tipo “anti-”, expressando, dessa maneira, sua oposição àquilo que está na posição oposta. A Reunião Nacional já foi definida como anti-igualitarista, anticomunista, anti-iluminista, anti-imigrantes, antidemocrático, etc.

Essas negações criam um espaço no qual é possível encontrar a ideologia da extrema direita. Os partidos e movimentos que se situam nesse espaço partilham uma família de semelhanças: alguns traços característicos que permitem identificar os membros. É como em uma família de pessoas. Os indivíduos que pertencem a uma mesma linhagem possuem traços comuns, mas as semelhanças não se manifestam todas com a mesma intensidade. Do mesmo modo, nesta família ideológica é possível perceber que os atributos comuns se manifestam com força diferente.

Uma Frente que reuniu neofascistas, terroristas e colaboradores do nazismo

Um pouco da história da Reunião Nacional pode ajudar à compreensão do fenômeno. Na origem desse partido está o grupo neofascista Nova Ordem. No final dos anos 1960, esse grupo reuniu militantes de diversas correntes da extrema-direita, dentre as quais se destacava o coletivo ultranacionalista Ocidente. Destes agrupamentos, Nova Ordem herdou a ideologia nacionalista-revolucionária e a prática de ataques violentos a militantes de esquerda.

Em 1971, a Nova Ordem propôs a criação de uma Frente Nacional. O ex-deputado Jean-Marie Le Pen rapidamente se somou ao movimento. Distante do ativismo juvenil dos neofascistas, ele havia sido próximo da reacionaríssima Ação Francesa durante seus anos como universitário e colaborou com a Organização do Exército Secreto, o grupo terrorista contrário à independência da Argélia. Também foram atraídos para a Frente um número considerável de colaboracionistas do nazismo.

A proposta da Frente Nacional por uma Unidade Francesa foi lançada oficialmente em junho de 1972, em um ato no qual, ao lado da bandeira da França, não faltou a cruz céltica, símbolo dos neofascistas. O movimento assumiu o nome de Frente Nacional em 5 de outubro desse ano e Le Pen passou a ocupar um posto de copresidente nele.

A declaração de intenções do novo partido, divulgada em 1972, anunciava a existência de uma crise “moral e política” e uma “decadência intelectual, moral e física” que oprimia a França. Dentre as causas dessa crise estavam a imigração, que ameaçava a identidade nacional. A declaração, tinha tons ultranacionalistas, autoritários e transpirava uma “profunda hostilidade contra a subversão comunista e seu desvio esquerdista”.

Avanço percebido a cada eleição

As décadas seguintes foram de pífios resultados eleitorais, mas a Frente Nacional permaneceu como um lugar de reunião de nacionalistas extremistas e neofascistas. Foram anos de marginalidade política, mas foi neles que o partido aprofundou sua ideologia anti-imigração, a qual passou a ocupar um lugar cada vez mais importante em seu programa.

Após a “travessia do deserto”, como Le Pen chamou aqueles anos, o programa político começou a dar seus frutos, em um contexto marcado pela crise econômica, com o aumento do desemprego, e pela política migratória dos governos socialistas de François Mitterand (1981-1995).

No início dos anos 2000, a filha do líder da Frente Nacional, Marine Le Pen, começou a ganhar projeção e a defender uma estratégia de des-demonização do partido, a qual permitiu uma modernização de seu discurso político. Gradativamente o programa do partido passou a combinar antigas reivindicações contra os imigrantes e a insegurança pública com um programa mais popular de combate ao desemprego e aumento dos salários.

Em 2011, Marine Le Pen foi eleita presidente da Frente Nacional, sucedendo seu pai. Estabelecida no comando do partido, ela procurou aprofundar as mudanças na agremiação e colheu rapidamente os resultados. Nas eleições presidenciais de 2012, a Frente obteve 18% dos votos e, nas legislativas do mesmo ano, 13,8%.

Esta trajetória ganhou ainda mais força em 2014, nas eleições europeias, quando a Frente Nacional teve 25% dos votos, obtendo a primeira colocação entre os partidos franceses e tornando-se a maior agremiação europeia da extrema-direita.

Os ganhos eleitorais expressavam a mudança do discurso político, o qual assumiu tons mais personalistas, destacando a figura de Marine Le Pen, ao mesmo tempo em que adotava um perfil antielitista e antimundialista.

No livro que lançou naquele ano para divulgar sua candidatura, Marine Le Pen denunciava “uma minoria cada vez menor e cada vez mais rica” que tinha “salários extraordinários, bônus escandalosos, ganhos de capital isentos de impostos” e “cada vez mais poder e riqueza”.

Ao mesmo tempo, a Frente Nacional procurava conciliar essas mudanças com o nacionalismo, a xenofobia, o autoritarismo e o perfil de partido “antissistema” que caracterizaram aquela família de semelhanças que permite reconhecer a extrema-direita. Não faltavam sequer as teorias conspiratórias, que viam a imigração como “uma arma econômica a serviço do grande patronato”.

O programa de 2012 também recorria aos mitos de renascimento nacional. De acordo com Le Pen: “Conduzir o povo francês no caminho do renascimento é a razão da minha candidatura às eleições presidenciais e de toda a minha luta política”.

Em 2015, o birô político da Frente Nacional expulsou Jean-Marie Le Pen do partido, alegando as reiteradas declarações antissemitas do fundador do partido. As disputas internas não impediram que o partido continuasse a crescer eleitoralmente. Nos anos seguintes, Marine Le Pen disputou duas vezes seguidas o segundo turno das eleições presidenciais: a primeira vez em 2017, depois de obter 21,3% no primeiro turno; a segunda em 2022, com a legenda agora rebatizada de Reunião Nacional, quando conquistou 23,2 % do eleitorado no primeiro escrutínio.

O programa de 2022 tentava apresentar “um caminho razoável para garantir aos franceses a proteção legítima da Nação”. Tratava-se de uma via que implicaria na própria refundação do Estado. Eram as próprias raízes da civilização à qual a França pertencia que se encontravam ameaçadas. Daí a importância de uma “refundação necessária para reconectar-se com a vocação da França, exemplo para o resto do mundo e pátria de um povo que mais uma vez se tornou dono de seu destino”.

As propostas contra os imigrantes assumiram contornos ainda mais extremos. A Frente passou a defender uma reforma constitucional e um referendum para impedir qualquer alteração na “identidade da França” e permitir a expulsão de estrangeiros e a proibição judicial de entrada no país de pessoas consideradas indesejáveis. Em particular, tornou-se forte a islamofobia, tema ausente no programa de 2012. Em 2022, definia como objetivo “erradicar o islamismo”.

Democracia sem cidadania para todos?

Nos últimos anos, a Reunião Nacional procurou conciliar o ultranacionalismo, o autoritarismo, o anticomunismo e os mitos de declínio e renascimento típicos de movimentos neofascistas com os princípios da soberania popular, a regra da maioria, a alternância dos partidos e a separação dos poderes. Mas o recrudescimento da xenofobia e do discurso contra os imigrantes por parte desse partido de extrema-direita mostra os limites dessa conciliação e a persistência de valores que conspiram contra a própria ideia de democracia.

Não existe democracia quando a cidadania é negada para alguns, com base em seu credo religioso, cor de pele ou qualquer outro critério excludente, razão pela qual considerar esse partido como parte da extrema-direita não é apenas correto do ponto de vista conceitual, como prudente politicamente.

Negá-lo, outrossim, equivale à colaborar, conscientemente ou não, com a estratégia de “normalização” dessa agremiação política, empreendida por sua líder com os conhecidos ganhos eleitorais. Ganhos esses que, mais uma vez, se registraram nas eleições legislativas de 30 de junho e 7 de julho, ainda que, para a sorte da democracia francesa, não tenham colhido a vitória esperada.

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