Em 30 de abril de 2026, a Indonésia lançou oficialmente a conexão de seu sistema nacional de pagamentos por QR Code, o QRIS, com a China.
Na prática, isso significa que consumidores indonésios e chineses poderão pagar compras, serviços e despesas de viagem por meio de códigos QR interoperáveis, com suporte inicial a UnionPay e Alipay. O WeChat Pay ainda passa por ajustes técnicos.
À primeira vista, parece uma notícia de tecnologia financeira. Um turista escaneia um código, paga pelo celular e segue viagem. Mas o alcance geoeconômico é maior. Esse tipo de sistema reduz a necessidade de recorrer ao dólar em determinadas transações internacionais de varejo. O pagamento acontece entre moedas locais, plataformas digitais e infraestruturas nacionais conectadas.
Dólar continuará dominante em vários setores
É preciso evitar exageros. O acordo China-Indonésia não derruba o dólar, nem inaugura sozinho uma nova ordem financeira mundial. O dólar continua dominante nas reservas internacionais, no comércio de commodities, nos mercados de dívida e nas operações cambiais.
Segundo o FMI, no quarto trimestre de 2025, o dólar representava 56,77% das reservas cambiais oficiais declaradas, enquanto o renminbi chinês ficava em apenas 1,93%.
A novidade está em outro lugar: países emergentes começam a construir canais práticos para depender menos do dólar em certas operações. A desdolarização, nesse caso, não aparece como uma grande proclamação política, mas como infraestrutura cotidiana. Ela surge no celular, no comércio, no turismo, nos pagamentos instantâneos e na conexão entre sistemas nacionais.
BRICS buscam formas de aumentar o uso de moedas locais
Esse ponto interessa diretamente aos BRICS. O grupo ampliado tem discutido formas de aumentar o uso de moedas locais, melhorar a cooperação entre bancos e criar mecanismos financeiros menos dependentes dos centros ocidentais.
A Declaração do Rio de Janeiro de 2025 mencionou, de fato, a importância de ampliar mecanismos de financiamento em moedas locais e fortalecer a cooperação bancária entre os países do grupo.
O caso China-Indonésia deve ser entendido como peça desse movimento, não como seu resultado final. Formalmente, trata-se de uma iniciativa bilateral. Politicamente, ela dialoga com uma agenda mais ampla dos BRICS: reduzir custos de transação, diminuir vulnerabilidades diante de sanções e criar alternativas à arquitetura financeira dominada pelo dólar.
A China aparece como o ator mais bem posicionado nessa disputa. Pequim já possui plataformas de pagamento de grande escala, como Alipay e UnionPay, além de interesse estratégico em ampliar o uso internacional do yuan. Ao conectar seus sistemas a parceiros comerciais, o país transforma tecnologia financeira em poder geoeconômico.
A Indonésia também ganha. O país se apresenta como ponte entre a Ásia, a economia digital e os BRICS. Ao integrar o QRIS com a China, Jacarta facilita o turismo, amplia o uso de pagamentos digitais e fortalece sua posição como mercado emergente relevante. A entrada formal da Indonésia nos BRICS, anunciada em janeiro de 2025, reforça essa leitura estratégica.
Brasil poderia transformar o PIX em ativo diplomático e tecnológico
Para o Brasil, a discussão é especialmente relevante. O Pix já mostrou que sistemas instantâneos de pagamento podem alcançar grande escala social e econômica. Em um cenário de maior interoperabilidade internacional, o Brasil poderia transformar sua experiência doméstica em ativo diplomático e tecnológico. A questão seria como conectar sistemas nacionais de pagamento de forma segura, regulada e eficiente.
O impacto sobre o SWIFT também precisa ser medido com cautela. O sistema QRIS-China não substitui a infraestrutura bancária usada em grandes operações financeiras internacionais. Ele atua em outra camada: pagamentos de varejo, turismo, consumo e pequenas transações. Ainda assim, se vários países conectarem seus sistemas nacionais, parte crescente das operações deixará de passar pelos canais tradicionais.
A geoeconomia contemporânea funciona assim: a disputa pelo poder não ocorre apenas por tarifas, sanções ou acordos comerciais. Ela também passa pelos padrões técnicos, pelas plataformas digitais, pelos sistemas de pagamento e pelos dados gerados em cada transação. Quem controla os trilhos do pagamento ganha capacidade de influência.
O lançamento de 30 de abril, parte de uma estratégia dos BRICS para desafiar o domínio do dólar e construir “autopistas comerciais” alternativas, deixa claro que, neste momento, novos caminhos estão sendo construídos ao lado da estrada principal.
O dólar continuará sendo a moeda central do sistema internacional por muito tempo. Sua liquidez, profundidade financeira e confiança institucional ainda não têm equivalente. Mas sua centralidade já não significa exclusividade.
A tendência mais provável é uma ordem financeira mais fragmentada, com o dólar no centro, mas cercado por corredores regionais de pagamento em moedas locais.
A desdolarização, portanto, talvez não comece com uma moeda comum dos BRICS. Pode começar de forma mais discreta: com um QR Code escaneado em Jacarta, Pequim, São Paulo ou Nova Delhi.
