Lenha ainda faz parte da cozinha brasileira, mas não apenas entre os mais pobres

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Estudo da PUC-Rio revela dados nacionais sobre o costume de brasileiros no uso de fogão a lenha ou carvão para cozinhar. Imagem: Wanas Rosa/Pexels.

No Nordeste, famílias de baixa renda ainda recorrem à lenha e ao carvão para cozinhar. No Sul, porém, o uso também aparece entre pessoas de maior renda. Um sinal de que a transição energética brasileira envolve pobreza, mas também cultura e hábitos regionais.

A transição para combustíveis mais limpos na cozinha brasileira ainda está longe de ser completa. No Nordeste, 13,1% das famílias de baixa renda utilizam lenha ou carvão como combustível principal e 18,5% fazem uso complementar desses combustíveis.

No Sul, porém, o cenário é diferente. Cerca de 13,3% das pessoas com renda superior a cinco salários mínimos também utilizam lenha e carvão para cozinhar.

Os números revelam um aspecto pouco discutido da transição energética brasileira: embora a renda seja um importante determinante do uso de combustíveis sólidos, ela não explica sozinha a permanência da lenha nos domicílios.

Em algumas regiões, fatores culturais, climáticos e tecnológicos também parecem desempenhar um papel importante.

Fogões a lenha e churrasqueiras, por exemplo, fazem parte dos hábitos de consumo de determinados grupos e regiões. Assim, parte do uso de biomassa observado no país pode refletir preferências e práticas culturais locais, e não necessariamente restrições econômicas ou falta de acesso a combustíveis modernos.

No Centro-Oeste e no Sudeste, em contrapartida, observam-se os menores índices de consumo, tanto para uso principal quanto complementar. O cenário sugere maior acesso e disponibilidade de combustíveis modernos. Ainda assim, o uso complementar de lenha ou carvão persiste em diferentes faixas de renda.

O retrato que emerge é fruto de um estudo do Departamento de Química da PUC-Rio sobre dados que cruzamos levantados junto a Empresa de Pesquisa Energética, vinculada ao do Ministério de Minas e Energia, ao Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O cenário é mais complexo do que a ideia de que apenas famílias pobres utilizam lenha. Para alguns grupos, ela representa uma alternativa diante do custo dos combustíveis modernos. Para outros, está associada a hábitos culturais e formas tradicionais de preparar alimentos.

Quando cozinhar com lenha é uma questão de pobreza energética

A pobreza energética ajuda a compreender parte dessa realidade. Ela ocorre quando indivíduos ou famílias não possuem acesso seguro, regular e financeiramente viável a serviços energéticos modernos, como eletricidade e gás de cozinha, essenciais para uma vida digna, saudável e produtiva.

No Brasil, esse problema ainda é pouco captado pelas estatísticas tradicionais. Ter acesso à rede elétrica ou a um combustível moderno não significa necessariamente conseguir utilizá-lo de maneira regular. O custo da energia e a possibilidade de recorrer a alternativas mais baratas também precisam ser considerados.

A limitação do poder aquisitivo é um dos principais determinantes do uso da lenha, contribuindo para a pobreza energética.

A dependência desse combustível, quando associada à ausência de alternativas mais limpas e acessíveis, produz consequências sociais, ambientais e de saúde pública.

Para famílias de baixa renda, a lenha pode ser obtida sem custo, seja pela extração de florestas nativas, com possível contribuição para o desmatamento, seja pela coleta de resíduos florestais, como troncos e galhos caídos.

Mas o preço que não aparece na compra do combustível pode ser pago de outras maneiras.

Em muitos casos, os locais de coleta ficam distantes das residências, impondo deslocamentos longos e extenuantes, realizados principalmente por mulheres e crianças.

A atividade envolve riscos de acidentes, esforço físico e perda de tempo que poderia ser destinado à educação ou ao trabalho remunerado. A lenha ainda precisa ser cortada e preparada antes do uso, ampliando a carga de trabalho doméstico.

O combustível que entra pela cozinha e chega aos pulmões

Há também uma dimensão de saúde pública. A queima da lenha pode liberar gases tóxicos, como monóxido de carbono (CO), óxidos de nitrogênio (NOx) e compostos orgânicos voláteis (COV), além de material particulado, como MP2,5 e MP10, no interior das residências.

A quantidade de poluentes depende, entre outros fatores, do tipo de fogão e das condições de ventilação. A exposição pode ser prolongada, já que o tempo necessário para cozinhar tende a ser maior com combustíveis sólidos do que com alternativas modernas, como o gás liquefeito de petróleo (GLP) e o gás natural (GN).

Mulheres e crianças estão entre os grupos mais vulneráveis, em parte porque permanecem por mais tempo nos ambientes domésticos. A exposição à poluição do ar dentro das residências está associada a efeitos adversos à saúde, incluindo doenças respiratórias e cardiovasculares e outros impactos crônicos.

A questão, portanto, não termina quando a comida chega ao prato. O combustível utilizado para prepará-la pode determinar também a qualidade do ar respirado dentro de casa.

Uma questão também ambiental

Os impactos ultrapassam as paredes das residências. A exploração da lenha, quando realizada sem práticas adequadas de manejo e reflorestamento, associada à sua posterior combustão, pode contribuir para as emissões de gases de efeito estufa (GEE) e ampliar os impactos sobre o clima global.

O tipo de fogão também faz diferença. Equipamentos rudimentares, comuns em contextos de vulnerabilidade social, apresentam baixa eficiência energética e precisam de mais lenha para preparar a mesma quantidade de alimentos.

Estudo realizado por nós em uma comunidade quilombola na Bahia mostrou que os modelos tradicionais, construídos de forma rudimentar, consomem, aproximadamente, 50% mais lenha do que modelos aperfeiçoados, como o modelo desenvolvido pelo Instituto Perene, em parceria com a Petrobrás.

O desafio da Agenda 2030

Garantir acesso universal a fontes de energia limpa e segura é, portanto, uma questão que ultrapassa a saúde pública. Envolve também equidade social, gênero e preservação ambiental.

A Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU) estabeleceu 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), entre eles o ODS 7, que trata de energia acessível e limpa.

A meta 7.1 prevê o acesso universal a serviços energéticos acessíveis, confiáveis e modernos. O indicador 7.1.2 acompanha o percentual da população que utiliza combustíveis e tecnologias limpas para cozinhar, como GLP, gás natural, eletricidade, biogás e energia solar, excluindo o uso de biomassa.

Os dados analisados mostram que o Brasil avançou no acesso a combustíveis mais limpos, mas a transição energética no setor residencial permanece incompleta e não ocorre da mesma maneira em todo o país.

Pensar na diversidade brasileira é importante para a formulação de políticas públicas. Uma estratégia que considere apenas a renda pode não explicar por que determinados grupos continuam utilizando lenha mesmo quando possuem condições econômicas para recorrer a outras fontes.

Estudos apontam relações entre pobreza energética, desigualdade de gênero, racismo ambiental e injustiça climática. Por isso, políticas públicas voltadas à transição energética precisam dialogar com energia, habitação, saúde, meio ambiente e assistência social.

A transição energética brasileira não pode ser entendida apenas como a substituição de um combustível por outro. Para algumas famílias, deixar de usar lenha depende de ter condições econômicas para comprar um combustível moderno. Para outras, significa também modificar hábitos e práticas culturais.

Garantir uma cozinha verdadeiramente limpa exige, portanto, mais do que ampliar a oferta de energia. É preciso assegurar que ela seja acessível, confiável e adequada às diferentes realidades sociais e regionais do país. Só assim a transição energética poderá ser, de fato, universal e justa.

Esta pesquisa recebe financiamento do CNPq, Faperj e Capes.

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