Mesmo sendo referência mundial, é fundamental que governos e autoridades de saúde brasileiras repensem as estratégias de comunicação dirigidas aos grupos hesitantes ou resistentes à vacinação. AP Photo/Bruna Prado

Estudo mostra os fatores que movem a decisão de se tomar vacina no Brasil

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O Brasil é referência mundial em campanhas de vacinação e saúde pública. No entanto, ainda que as taxas de cobertura vacinal venham se recuperando, elas se mantêm abaixo das metas, problema em parte associado ao caloroso debate sobre vacinação. Mas quais outros fatores podem contribuir para isso? Nosso estudo, publicado recentemente no jornal Health Policy and Technology, analisa as preferências do público em relação às características das vacinas e às intervenções não farmacêuticas, assim como os fatores que influenciam simultaneamente a tomada de decisão individual em relação à vacinação.

A análise do painel de imunização do Ministério da Saúde do Brasil revela que a cobertura vacinal registou uma recuperação nos últimos três anos, mas a realidade mostra uma variabilidade nos níveis de cobertura vacinal conforme o tipo de vacina — como Meningocócica C, Hepatite B, Penta, Pneumocócica e Varicela — e entre regiões do país, especialmente o Norte e o Nordeste, que apresentam os níveis mais baixos de cobertura.

Paralelamente, dados do Portal de Imunização da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram o ressurgimento de algumas doenças evitáveis por vacina. Esse fenômeno reforça a urgência de compreender as oscilações na cobertura vacinal no Brasil e quais fatores influenciam a decisão das pessoas de se vacinar. Isso é especialmente importante no momento em que o país enfrenta desafios crescentes relacionados à polarização política, ao papel dominante das redes sociais, à disseminação de desinformação e a recuperação da cobertura vacinal.

Aspectos socioeconômicos, demográficos e políticos

Nosso trabalho é o primeiro experimento de escolha discreta (DCE) considerando uma futura pandemia respiratória (similar à COVID-19) realizado no Brasil. Reunimos, em um único estudo, preferências sobre as restrições sociais impostas pelo governo, as preferências da população em relação a potenciais vacinas contra vírus respiratórios e um conjunto amplo de dados sociodemográficos — incluindo atitudes morais, percepções de risco, preferências de tempo e opiniões políticas.

Entre julho e setembro de 2022, reunimos uma amostra de 3001 participantes brasileiros, cuidadosamente selecionados para refletir a diversidade demográfica do país, garantindo a representatividade por idade, gênero e distribuição geográfica. A amostra foi recrutada online e é composta majoritariamente por indivíduos com maior nível educacional que a média da população brasileira.

Os participantes foram perguntados sobre aspectos socioeconômicos, demográficos e de orientação política. Também apresentamos diversos cenários com distintas características do imunizante, assim como medidas de restrição de circulação ou convivência, como mostra a imagem abaixo. Nesse cenário hipotético, os participantes foram convidados a escolher a opção que lhes parecesse mais adequada entre duas vacinas com características diferentes, podendo posteriormente optar por não tomar nenhuma delas.

Ilustração criada pelos autores.

As principais descobertas do nosso estudo

1) Os participantes demonstraram alta confiança nas vacinas e na rede pública de saúde.

2) Os principais fatores que afetaram as decisões de vacinação foram:

3) Por outro lado, fatores como possuir diploma universitário, idade ou região do país não mostraram influência significativa nas decisões de vacinação.

4) Identificamos quatro grupos heterogêneos após uma análise de classes latentes (um método estatístico que agrupa pessoas com padrões de comportamento semelhantes) aqui representados por quatro avatares:

Todas as ilustrações acima foram criadas pelos autores.

A urgência de rever estratégias de comunicação

Nosso estudo corrobora as conclusões de outros autores que identificaram a polarização política como um determinante crucial da saúde, e do seu dinamismo ao longo do tempo, como bem demonstra a vacinação durante a pandemia e a aderência a vacinação por parte de grupos mais conservadores de direita.

À medida que novas crises sanitárias e epidemias venham a surgir — o que não é uma questão de se, mas de quando — é fundamental que governos e autoridades de saúde repensem as estratégias de comunicação dirigidas aos grupos hesitantes ou resistentes à vacinação.

As preferências de vacinação são dinâmicas e podem mudar ao longo do tempo. Criar sistemas dinâmicos de monitoramento das preferências da população — como inquéritos anuais sobre o sentimento em relação às vacinas, conduzidos ao nível estadual — permitiria aos decisores de saúde pública identificar mudanças de atitude em tempo real e ajustar rapidamente as suas estratégias. Abordagens apoiadas por tecnologia tornam as políticas de saúde pública mais ágeis, inclusivas e centradas na confiança.

Além disso, os resultados reforçam a importância de construir e manter a confiança pública nas autoridades de saúde, independentemente da orientação política do governo central em exercício. Instituições de saúde pública percebidas como técnicas, consistentes e politicamente independentes tendem a ser mais resilientes a choques de comunicação e a interferências políticas, como observado durante a pandemia. O fortalecimento dessa confiança institucional é, portanto, um componente central para mitigar os efeitos da polarização política sobre comportamentos de saúde.

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