Recentemente, a Meta anunciou o fim da criptografia ponta-a-ponta nas conversas privadas do Instagram, um padrão técnico que torna quase impossível que terceiros sem autorização leiam a comunicação digital entre duas partes de uma conversa.
Ainda que essa funcionalidade de segurança não estivesse disponível por padrão e para todas as pessoas que fazem uso da rede social, essa mudança vai muito além de mera decisão de negócio: atende à demanda e pressão de forças estatais de segurança, como FBI e Interpol, que criticam a disponibilidade de criptografia forte, pois reduz sua capacidade de ver e ler informações privadas.
Os Estados sempre precisaram saber para poder organizar, intervir e governar a realidade. Como lembra James Scott, tornar a realidade “legível” é condição básica para a ação estatal. Sem informação acessível e padronizável, não há política pública. Não há planejamento, nem controle. Isso vale para as políticas sociais, mas também para aquelas de segurança.
Durante séculos, o desafio ao Estado moderno foi conseguir ver e ler. Hoje, o desafio é outro, pois a digitalização torna as vidas cotidianas cada vez mais legíveis.
Em 2025, 86% dos domicílios brasileiros contavam com acesso à Internet, aumento significativo comparado a 2015, quando apenas 51% dos lares acessavam o serviço, revelam dados da Pesquisa TIC Domicílios 2025.
E mais: segundo a série de pesquisas sobre comportamento dos consumidores Consumer Pulse, os brasileiros passam, em média, mais de 9 horas conectados à Internet, enquanto a média global é de menos de 7 horas.
Cidadãos, seus hábitos, trocas e deslocamentos estão mais visíveis do que nunca
Nesse cenário, dados circulam em escala inédita. Infraestruturas digitais sustentam desde pagamentos cotidianos até políticas públicas complexas. E a criptografia deixa de ser detalhe técnico e se torna disputa política.
A internet não nasceu segura. Foi construída para ser resiliente e redundante, mas não protegida. Durante anos, as comunicações circularam com pouca ou nenhuma proteção robusta. A consolidação do HTTPS - cuja adoção saltou de cerca de 30–45% em 2015 para algo entre 95–99% por volta de 2020, segundo o Chrome Security Team, não foi capricho técnico. Foi uma resposta a um ambiente digital cada vez mais hostil: o “S” de “Secure” significa criptografia forte. Significa impedir interceptação. Garantir integridade. Proteger comunicações.
Mas toda proteção tem implicações políticas. Para parte dos Estados, especialmente no Norte Global, a disseminação da criptografia forte passou a ser vista como um obstáculo. Se tudo está protegido, argumentam, investigações ficam mais difíceis ou impossíveis.
O discurso desses atores é que as autoridades estariam ficando no escuro, incapazes de acessar comunicações relevantes para combater crime ou terrorismo. A solução recorrente que propõem é limitar a criptografia, seja com padrões menos seguros ou pela criação de mecanismos de acesso excepcional.
Daí nascem as Guerras Criptográficas (Crypto Wars). E elas nunca foram apenas técnicas.
Organizações da sociedade civil, comunidades técnicas, pesquisadores e até atores do setor privado têm reagido a essas tentativas. Entidades como a Electronic Frontier Foundation e diversas coalizões acadêmicas enfrentam continuamente a pretensa dicotomia entre privacidade e segurança, apontando o que é consenso técnico: não existe “porta dos fundos” que só os “bons” possam usar.
Redefinição da segurança
Os poderes advindos de vulnerabilidades nos sistemas informacionais independem das nobres intenções de seus criadores - é apenas questão de tempo até minar a própria segurança de cidadãos e instituições que visam proteger. A disputa, portanto, é mais profunda. Trata-se de quem define o que é segurança, especialmente segurança de quem e segurança contra quem.
Se a segurança é entendida apenas como resultado da capacidade estatal de acessar comunicações e informações privadas, então a criptografia é, de fato, um obstáculo. Se segurança inclui a proteção da infraestrutura digital que sustenta comércio, comunicação, vida política e relações sociais, isso muda. A criptografia passa a ser entendida como uma condição necessária, ainda que não suficiente, para garantir segurança nessas sociedades cada vez mais digitalizadas.
A economia digital depende da confiança na criptografia. Sistemas bancários, comércio eletrônico, serviços em nuvem, registros médicos, comunicações empresariais e até processos eleitorais digitais pressupõem integridade e confidencialidade. Essa confiança já se encontra fragilizada.
Em 2024, mais da metade da população brasileira foi vítima de fraudes digitais, revela relatório da BioCatch. Em 2025, o Brasil foi o sétimo país que mais sofreu tentativas de ataques cibernéticos, segundo dados da DeepStrike. O Fórum Brasileiro de Segurança Pública e Datafolha estimam que os prejuízos de crimes virtuais e roubos de celulares ultrapassam R$ 186 bilhões entre 2023 e 2024, no Brasil.
Se já existe um cenário de insegurança digital no Brasil e no mundo, é necessário entender que enfraquecer padrões criptográficos para ampliar a capacidade de vigilância estatal implica assumir um custo sistêmico: aumentar a superfície de ataque de toda a infraestrutura digital.
Disputa entre Estado e sociedade civil
Essa escolha produz externalidades globais. A internet é transnacional por desenho: uma rede de redes que conecta dispositivos visando a troca de informações. Uma fragilização introduzida em determinado país não permanece confinada à sua jurisdição. Ela se propaga por cadeias técnicas e comerciais. O que começa como política doméstica torna-se risco sistêmico.
Esse conflito é analisado por Daron Acemoglu e James Robinson (2023)como uma disputa entre Estado e sociedade civil pela acumulação de capacidade. Aqui, enquanto alguns arranjos permitem a concentração de poder e ampliação da capacidade extrativa do Estado, outros viabilizam a distribuição de poder, fortalecimento de instituições inclusivas e a geração de prosperidade sustentável.
Portanto, trata-se de saber se a arquitetura digital será moldada para expandir a capacidade estatal de monitoramento, à custa de vulnerabilidades sistêmicas, ou para consolidar uma infraestrutura inclusiva. Uma que distribui segurança entre cidadãos, empresas e governos, e garante um ecossistema digital de prosperidade em curto, médio e longo prazo.
A escolha por enfraquecer padrões criptográficos pode aumentar o poder imediato de coerção, mas tende a reduzir a confiança institucional e a resiliência econômica no longo prazo. Já a preservação de criptografia forte limita certas formas de intervenção estatal, porém amplia a capacidade coletiva de inovação, proteção patrimonial e estabilidade democrática. O conflito, portanto, é menos sobre “ver ou não ver” e mais sobre qual tipo de capacidade institucional se pretende acumular, e a que custo estrutural.
Sob essa perspectiva, o conflito pode ser lido como uma disputa por acumulação de capacidade institucional. De um lado, o Estado busca preservar instrumentos tradicionais de investigação. De outro, a arquitetura técnica evolui para reduzir vulnerabilidades estruturais. A decisão sobre criptografia, portanto, é uma escolha sobre qual capacidade priorizar: a de acessar ou a de proteger.
No fim, enfraquecer a criptografia vai significar maior insegurança, mesmo que facilite o trabalho de investigação do Estado. Isso decorre da diminuição de entraves para atores e grupos criminais organizados realizarem seus ataques digitais que já são, hoje, um desafio para o qual nosso Estado já é pouco capaz de lidar.
Assim, o debate sobre criptografia revela uma tensão mais profunda entre duas concepções de poder. Uma baseada na ampliação da legibilidade para o Estado, outra centrada na resiliência institucional e na proteção distribuída.
A pergunta decisiva não é se o Estado deve investigar crimes. Evidentemente deve. A pergunta é se, para fazê-lo, estamos dispostos a fragilizar a infraestrutura que sustenta e protege a própria sociedade digital.
Se a resposta for afirmativa, a criptografia será tratada como obstáculo. Se a resposta for negativa, ela será reconhecida como infraestrutura crítica e essencial. E essa é sobretudo uma decisão política e não mero detalhe técnico ou de negócio.
