Um jovem com cartola apoia o queixo no ombro de uma jovem que parece desconfortável..
No recente filme “Drácula”, de Luc Besson, o personagem principal é um romântico incurável, uma transformação significativa do vampiro original, apresentado como um monstro de “hálito fétido”, “rosto nada agradável” e personalidade “dura e cruel”. Vertical

Como o personagem do Conde Drácula se tornou um amante ardoroso

O Senhor dos Vampiros. O Rei dos Mortos-Vivos. O Amante Supremo. Todos se referem ao imortal Conde Drácula, que apareceu originalmente no romance de Bram Stoker, de 1897.

Mas a fama do personagem surgiu mais a partir de suas mais de 200 ressurreições cinematográficas, começando com “A Morte de Drácula” em 1921 e, mais recentemente, em “Drácula” de Luc Besson, que estreou mundialmente em fevereiro de 2026.

A interpretação de Besson recebeu atenção especial por seu foco na paixão pessoal. Originalmente intitulado “Drácula: Uma História de Amor”, o filme apresenta um protagonista que não é simplesmente um monstro, mas um amante. O The New York Times chamou o filme de “extravagantemente bobo” e descreveu a atuação do ator Caleb Landry Jones do monstro clássico como “deliciosamente operística: menos vilão, mais virtuoso no amor”.

Enquanto isso, em Londres, Drácula como amante também é tema de uma nova produção teatral de Cynthia Erivo, na qual ela interpreta o conde e outros 22 personagens. Uma produção mais recente e menor de Washington, D.C., intitulada “Dracula: A Comedy of Terrors” apresenta o Conde de forma semelhante, embora com um toque LGBTQ+ hilariamente divergente.

Em outras palavras, Drácula percorreu um longo caminho desde seus dias como um velho lascivo e assustador, uma mudança que pode ser atribuída, em parte, à evolução das atitudes em relação ao amor, gênero e sexualidade.

“Até seu hálito era fétido”

Quando Stoker publicou pela primeira vez “Drácula”, o personagem apareceu no final de uma longa linha de vampiros literários, desde Lord Ruthven em “O Vampiro” (1819) de John Polidori até Sir Francis Varney em “Varney, o Vampiro” (1845-1847).

Um vampiro careca, magro e idoso com olhos fundos.
No filme alemão de 1922 ‘Nosferatu: Uma Sinfonia do Horror’, o vampiro, Conde Orlok, aparece como seus repulsivos e predatórios antecessores literários. Frederic Lewis/Hulton Archive via Getty Images

Esses vampiros eram todos velhos decrépitos, repugnantes e predatórios, e o Conde Drácula de Stoker não era diferente. No romance, um personagem observa as mãos “ásperas” de Drácula, a “palidez extraordinária” de sua pele e suas orelhas “extremamente pontudas”; no topo de sua “testa alta e abaulada”, seu cabelo crescia “escasso” em sua cabeça. Até mesmo seu “hálito era fétido”. Outro personagem descreve Drácula como possuidor de “um rosto nada agradável”, acrescentando que era “duro e cruel”.

A primeira adaptação cinematográfica de longa-metragem de “Drácula” que sobreviveu foi o filme alemão de 1922 “Nosferatu: Uma Sinfonia do Horror”, que copia o enredo e os personagens do romance de Stoker. Nele, o Conde Orlok — essencialmente uma versão pirata de Drácula — parece um rato, emaciado e pálido.

Jogo de sedução

Pouco sobre o Drácula de Stoker ou o Conde Orlok gritava “amante”, embora haja, sem dúvida, uma sexualidade implícita na maneira como ele ataca e persegue suas vítimas.

Em vez disso, Drácula ganhou o rótulo de “amante” em aparições posteriores na tela.

O exemplo mais antigo aparece no filme de 1944 “A Mansão de Frankenstein”, onde Rita (Anne Gwynne) inicialmente se preocupa com a presença de Drácula. Mais tarde, porém, ela descobre que “não tem mais medo” depois que ele coloca um anel em seu dedo indicador, que se encaixa magicamente em seu formato preciso.

No final dessa cena, enquanto ela olha com desejo nos olhos dele, ele anuncia que virá buscá-la no dia seguinte, como se tudo fosse um encontro amoroso em desenvolvimento.

O Conde Drácula é mais um sedutor bonito do que um velho tarado em ‘A Mansão de Frankenstein’.

A evolução do personagem Drácula refletiu mudanças nas percepções mais gerais sobre gênero, sexualidade e violência que ocorreram após a Segunda Guerra Mundial, quando a cultura popular começou a minar a centralidade da família nuclear. À medida que livros, filmes e programas de TV exploravam temas como luxúria, infidelidade, relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo e divórcio, as imagens dos vampiros se tornaram mais complexas.

No filme “Drácula” de 1958, por exemplo — intitulado “O Vampiro da Noite” no Brasil —, Drácula (Christopher Lee) é um predador que invade as casas de mulheres casadas.

Mas há também uma sugestão de romance. Em uma cena em particular, ele agride Mina Holmwood (Melissa Stribling). Mas Mina parece acabar cedendo, e eles compartilham um beijo breve e apaixonado. O British Board of Film Classification (Conselho Britânico de Classificação Cinematográfica) chegou a censurar a cena, considerando-a um exagero em um filme já repleto de conotações sexuais.

O diretor Terence Fisher mais tarde relembrou dizendo a Stribling para retratar sua personagem como se ela “tivesse tido uma noite sexual incrível, a melhor de toda a sua experiência sexual. Mostre isso no seu rosto!”.

Amante ou monstro?

Na década de 1970, a sexualidade se tornou um aspecto ainda mais pronunciado na mídia relacionada a vampiros, refletindo mudanças culturais mais amplas nas visões sobre a sexualidade humana.

Quadrinhos como “Vampirella” apresentavam o vampiro como um símbolo de poder hipersexualizado, feminino e erótico, enquanto filmes como “Atração Mortal” exploravam temas como o lesbianismo, embora não de uma forma totalmente explícita.

No filme “O Grande Amor do Conde Drácula” (1973), Drácula se apaixona perdidamente por uma jovem chamada Karen, que acaba rejeitando suas investidas. Perto do final do filme, o vampiro apaixonado lamenta: “Pela primeira vez, o amor traz um fim à vida de Drácula”, antes de cravar uma estaca em seu coração com as próprias mãos.

Pouco tempo depois, um filme feito para a TV, “Drácula”, mostra a busca de Drácula por sua esposa morta.

Uma mulher de cabelos pretos e vestido vermelho beija apaixonadamente um homem de cabelos longos e pretos.
Winona Ryder e Gary Oldman se beijam em uma cena do filme de 1992 ‘Drácula, de Bram Stoker’. Columbia Pictures/Getty Images

A “busca por um amor morto” se tornaria um tema central em filmes futuros. Por exemplo, em “Drácula de Bram Stoker” (1992), de Francis Ford Coppola, os espectadores descobrem que Drácula deixa a Transilvânia e vai para a Inglaterra em busca da reencarnação de sua esposa morta.

Esse anseio era um conceito emprestado. Na novela gótica “Sombras da Escuridão” (1966-1971), o personagem Barnabas Collins (Jonathan Frid) tenta replicar seu romance com sua amada falecida há muito tempo, Josette, tentando controlar sobrenaturalmente o corpo vivo de uma garota chamada Maggie Evans (Kathryn Leigh Scott) para que ela imite Josette.

O conceito de um vampiro ansiando por um amor perdido — especialmente um de uma era perdida — marcou uma evolução significativa na mídia sobre vampiros.

Na série de quadrinhos da década de 1970 “The Tomb of Dracula,” o Conde tem uma esposa humana chamada Domini; por meios mágicos, ele consegue até conceber um filho com ela. Graças ao seu romance, ele agora pode “compreender coisas como paz, descanso e amor”.

Apesar de Drácula como amante ser agora um clichê tão batido, o sempre adaptável Conde também está pronto para suas tradicionais tarefas assustadoras, mais recentemente em “Nosferatu” (2024), de Robert Eggers. Seja ele um amante, um monstro ou ambos, Drácula representa a ideia do vampiro como um espelho da experiência humana. O romance às vezes pode oscilar entre o amor e a dor. A paixão às vezes pode ser assustadora. Portanto, da próxima vez que você o vir no palco ou na tela, não se surpreenda se seu amor ardoroso também vier acompanhado de uma mordida afiada.

This article was originally published in English

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