Ataques à liberdade de imprensa e erosão democrática: pontos que aproximam os Estados Unidos da… Hungria

O ditador Viktor Orbán, com seu slogan “Make Europe Great Again”, e o presidente dos EUA Donald Trump: governo da terra da democracia está aplicando cada vez mais os ensinamentos do manual de autocracia do presidente da Hungria que se perpetua há 15 anos no poder. Fotos de Paul White e Evan Vucci (AP Photo)

A liberdade de expressão e de imprensa é elemento constitutivo das democracias. Sem imprensa livre, enfraquece-se a fiscalização do poder e dissolve-se o espaço de crítica que sustenta a esfera pública. A Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, estabelece essa liberdade como direito inalienável. Nos Estados Unidos, a Constituição a protege desde sua fundação por meio da Primeira Emenda.

Nos últimos anos, evidencia-se a deterioração progressiva dessas garantias, especialmente nos Estados Unidos sob Donald Trump, seguindo práticas já observadas na Hungria de Viktor Orbán. Ambos os casos ilustram estratégias de captura institucional e concentração de poder, tensionando as bases democráticas e abrindo espaço para dinâmicas autocráticas.

O pensamento constitucional que estruturou as democracias modernas reconheceu a propensão do poder à expansão quando não adequadamente limitado. O filósofo inglês John Locke via a liberdade de crítica como anterior à formação do Estado, enquanto Montesquieu argumentava que a separação de poderes e a proteção da liberdade de expressão eram barreiras necessárias à contenção da tirania.

O político e advogado James Madison, ao formular a Primeira Emenda, defendeu não apenas a inexistência de censura, mas a criação de condições materiais que garantissem a existência de uma esfera pública crítica e informada. Assim, apoiou políticas que estimularam a ampla circulação de jornais, compreendendo que o acesso à informação era indispensável para o funcionamento da cidadania.

A teoria política clássica, entretanto, não previu com clareza os mecanismos de erosão indireta que caracterizam as democracias contemporâneas. A manipulação estratégica das normas jurídicas, a utilização seletiva de instrumentos legais e a criação de barreiras institucionais não explícitas constituem formas eficazes de minar a liberdade de imprensa sem romper formalmente com a ordem constitucional.

Essas práticas se manifestam por meio de assédio judicial sistemático contra veículos de imprensa, pressões financeiras destinadas a inviabilizar a sustentabilidade econômica dos meios independentes, instrumentalização de órgãos reguladores para perseguir adversários e campanhas públicas destinadas a deslegitimar jornalistas e plataformas críticas.

O objetivo principal não é censurar diretamente, mas reconfigurar o espaço público de modo a controlar o fluxo de informações disponíveis para a sociedade, minando progressivamente a capacidade de deliberação livre e o pluralismo informativo. A erosão não se dá em grandes rupturas, mas em ajustes sucessivos que reduzem a capacidade da imprensa de cumprir seu papel fiscalizador.

Hungria: A Reconfiguração do Espaço Político

Desde 2010 ocupando o cargo de primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán promoveu uma reconfiguração estrutural do sistema político húngaro. A centralização do controle sobre a mídia foi acompanhada pela criação de órgãos reguladores subordinados ao governo, pela concentração dos veículos de comunicação em mãos de aliados e pela transformação da mídia pública em instrumento de propaganda.

Em 2024, o Parlamento húngaro aprovou uma legislação permitindo a revogação da cidadania de críticos que possuam dupla nacionalidade, aprofundando o alinhamento político obrigatório como critério de cidadania. Portanto, a Hungria mantém formalmente processos eleitorais, mas opera segundo dinâmicas de autocratização institucionalizada.

Estados Unidos: Restrição da Imprensa e Remodelagem Institucional

Durante o segundo mandato de Donald Trump, práticas semelhantes estão sendo observadas. Jornalistas críticos estão sendo excluídos de eventos oficiais e veículos como Associated Press, CBS, NPR e PBS passaram a ser alvos de processos judiciais e investigações da Federal Communications Comission (FCC). Simultaneamente, promove-se a substituição de fontes tradicionais de informação por mídias alinhadas e a rotulagem da imprensa crítica como “inimiga do povo”.

As alterações no sistema também alcançaram agências como a U.S. Agency for Global Media, que teve seu funcionamento comprometido, expondo jornalistas estrangeiros a riscos de perseguição em seus países de origem. Esse movimento não apenas restringiu a liberdade de imprensa interna, mas comprometeu o papel internacional dos Estados Unidos como agente de promoção da liberdade de expressão. Além da imprensa, universidades e centros de pesquisa também foram submetidos a pressões políticas e cortes de financiamento, ampliando o padrão de ataque às instituições autônomas.

Padrões de Captura Democrática

Em ambos os casos, o ataque inicial à imprensa precede a transformação mais ampla dos arranjos institucionais. A centralização do poder executivo, o enfraquecimento dos mecanismos de fiscalização e a manipulação da arquitetura regulatória configuram trajetórias claras de autocratização.

Embora sistemas federativos possam retardar essas dinâmicas, a efetividade dos freios institucionais depende da adesão substantiva dos atores políticos aos princípios democráticos. A fragmentação de competências, embora relevante, não é suficiente para impedir a degradação quando o comprometimento normativo se dissolve.

A sobrevivência das democracias, portanto, não depende apenas de sua arquitetura formal, mas da integridade dos atores que operam seus mecanismos.

A comparação entre Estados Unidos e Hungria demonstra que a erosão democrática não exige a ruptura explícita das instituições, mas pode ser conduzida pela progressiva corrosão dos instrumentos de controle, da liberdade de imprensa e do pluralismo informativo.

A liberdade de imprensa não é um adorno das democracias, mas condição para o funcionamento de seu processo deliberativo. Sem acesso livre e crítico à informação, a deliberação pública se torna disfuncional e o consentimento popular perde legitimidade.

A tradição política que remonta a John Locke, Montesquieu e James Madison reafirma que o poder só se mantém legítimo quando submetido ao escrutínio contínuo da opinião pública. Além disso, a Carta das Nações Unidas de 1948 consagra a liberdade de expressão como pilar da dignidade humana e da estabilidade internacional.

A defesa da liberdade de imprensa não é contingente nem acessória: é requisito para a preservação da democracia enquanto regime de governo baseado na limitação do poder e na soberania popular informada.

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