O ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, e o vice-ministro das Relações Exteriores do Irã, Seyed Rasoul Mohajer, posam para uma foto no encontro do BRICS no Palácio do Itamaraty, no Rio de Janeiro, em 28 de abril de 2025. A manifestação oficial brasileira evita qualquer gesto que possa ser interpretado como escolha. Mas, diante da gravidade do ataque, a omissão de gestos concretos já constitui um posicionamento. AP Photo/Bruna Prado

Análise: Diplomacia brasileira é tímida na condenação a Israel e se distancia da liderança que pretende exercer

A manifestação do Itamaraty condenando os ataques de Israel ao Irã soa, à primeira vista, como uma reafirmação de princípios caros à tradição diplomática brasileira: respeito à soberania, apego ao direito internacional, defesa da paz. Mas a forma com que essas palavras foram colocadas revela mais do que pretendem esconder. É uma resposta que parece moldada para não comprometer ninguém, tampouco oferecer qualquer consequência prática. O Brasil reagiu de forma rápida, mas não ousou sair da moldura confortável das fórmulas diplomáticas genéricas. A crise, no entanto, exige bem mais que isso.

O ataque não foi um episódio periférico. Teerã foi atingida com intensidade militar inédita, altos comandantes e cientistas foram mortos, instalações nucleares foram bombardeadas e canais de negociação foram abruptamente suspensos.

Diante desse cenário, a resposta brasileira restringiu-se a palavras previsíveis. Em tom neutro, expressa “firme condenação” à ação israelense e menciona preocupação com os riscos à paz e à segurança mundiais. Não há menção a consequências políticas, convocação de representantes diplomáticos, articulação com outros membros do BRICS ou iniciativa nos fóruns multilaterais. O governo brasileiro, mais uma vez, opta por uma retórica que preserva sua tradição de neutralidade, mas ignora o novo cenário que ele próprio ajudou a construir ao acolher o Irã no bloco.

O ingresso iraniano no BRICS em 2024 redefiniu o posicionamento do Brasil no sistema internacional. Embora o grupo não preveja mecanismos de defesa coletiva, compartilha princípios que incluem soberania, multipolaridade e contestação à ordem internacional dominada por potências ocidentais. Quando um dos membros é alvo direto de uma ofensiva com esse grau de gravidade, o silêncio ou o gesto protocolar já não são neutros. O Brasil se vê, agora, obrigado a responder a expectativas concretas de solidariedade política — ou a lidar com a acusação de incoerência.

Esse é o dilema que a diplomacia brasileira tenta contornar. O país tem interesses relevantes com os dois lados da disputa. Israel é um parceiro em segurança, agronegócio e tecnologia. Ao mesmo tempo, a aproximação com o Sul Global, consolidada no G20 e no próprio BRICS, exige alinhamento simbólico e, em certos momentos, posicionamentos mais claros. A manifestação oficial brasileira evita qualquer gesto que possa ser interpretado como escolha. Mas, diante da gravidade do ataque, a omissão de gestos concretos já constitui um posicionamento, especialmente quando observada por aliados estratégicos recém-incorporados.

É preciso reconhecer que essa postura enfraquece a própria narrativa internacional que o país vem construindo. O Brasil busca ocupar um lugar de destaque como voz da moderação, defensor da paz e articulador entre polos geopolíticos em conflito. Essa pretensão, no entanto, perde força quando, diante de uma violação de soberania com amplo impacto internacional, a diplomacia brasileira se limita a expressões genéricas. Ela fala, mas não age; e ao não agir, o Brasil se distancia da liderança que afirma desejar exercer.

Em situações como essa, a consistência entre o que o país declara e as medidas que ele de fato adota torna-se evidente e exigida. A comunidade internacional, especialmente os parceiros do Sul Global, observa atentamente a conduta diplomática de cada Estado. Essa capacidade de alinhar discurso e ação revela se um governo está disposto apenas a manter a previsibilidade tradicional ou se pretende transformar intenções diplomáticas em políticas e ações concretas e eficazes.

Neste episódio, o Brasil escolheu não tensionar suas alianças, mas também não reafirmou com clareza o compromisso com o novo desenho multipolar que promove em discursos. O ataque israelense ao Irã representa um teste à consistência da atuação brasileira. Diante dele, as palavras do Itamaraty importam menos pelo que dizem e mais pelo que deixam de fazer acontecer.

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